quarta-feira, 27 de junho de 2007

Meu pai: O homem mais admirável que já conheci.

Sabem aquelas pessoas que têm uma história admirável, repleta de muita sorte, grandes acasos e muita luta?
Pois é, uma dessas pessoas é meu pai.
Eu sou uma pessoa muito suspeita para falar dele, pois cada vez que começo eu o transformo numa espécie de semideus. As pessoas que me conhecem chegam a chamá-lo de São Francisco Celeiroz.
Não entendo bem os motivos que trouxeram meu pai ao Brasil, nem me interessa muito esse fato, mas sei que não trouxe muito dinheiro e tudo que obteve foi de seu próprio esforço.
Ao chegar ao Brasil, meu pai tinha apenas 18 anos e, se pensarmos bem, só isso já foi um ato de grande coragem e bravura, pois aos 18 eu não tinha certeza nem sobre a carreira que gostaria de seguir, quanto mais mudar de país, para longe da minha família, com pouco dinheiro.
Sei também que veio morar na casa de uns primos, uns dos poucos parentes de meu pai que cheguei a conhecer. Esses parentes tinham um bar e foi nesse bar que começou a trabalhar. Trouxe um malão enorme de ferro e um cobertor de pele de carneiro que, quando criança, chamava-o de “o português”.
Embora muitos que me conheçam pensem que meu pai veio direto ao Rio de Janeiro, não foi esse o destino inicial dele. Primeiramente, morou em São Paulo e foi lá onde começou toda a sua trajetória de sucesso.
Como disse, meu pai começou trabalhando em um bar, porém logo descobriu a sua vocação para o comércio. Lembro-me bem dele contar da sua aventura em uma firma chamada Internacional, acho que era uma empresa que fabricava tratores e peças. Contava com detalhes impressionantes como começou de balconista, passou a estoquista e logo chegou a vendedor de grande destaque na empresa.
A empresa fechou, pois era de capital estrangeiro e as mudanças na política brasileira, já não lhe eram tão favoráveis assim, porém ele tinha descoberto o que realmente gostava de fazer: vender.
Também sei que trabalhou entregando Sinca Chambord pelo país a fora. Eu não conheço um Sinca, mas sei da sua história e como foi importante para nosso país produzir esse carro e como ele falava com orgulho dessa época. Teve até um seriado de tv chamado Patrulheiro Rodoviário, cujo protagonista dirigia um carro desses. Por mais que as pessoas falem dessa série, eu não consigo me lembrar dela, mas das histórias que meu pai contava eu não me esqueço de nenhuma.
Quando meu pai e minha mãe se casaram, ele era caixeiro viajante e passava muito tempo fora de casa e quando eu nasci, logo comecei a sentir a sua ausência. Assim que comecei a entender, chorava muito porque queria ver o meu pai e minha mãe o mostrava sempre em um porta retratos com a foto do casamento. Um dia eu resolvi tirar o meu pai daquela “caixa” quebrando o tal porta retratos.
Foi então que ele resolveu ficar mais em casa e comprou um bar perto da auto escola do meu tio.
O bar não deu muito certo, pois trabalhava muito e o dinheiro que entrava era muito pouco, o seu objetivo de ficar com a família também não tinha sido alcançado, pois abria o bar às 6 da manhã e fechava à meia noite.
Vendeu o bar e começou a trabalhar com uma firma de livros importados que pretendia abrir uma filial no Rio de Janeiro. Mais uma atitude de grande coragem e desprendimento: partir para uma cidade desconhecida com uma criança com pouco mais de um ano. Assim o fizeram.
Meu pai veio primeiro para procurar um lugar para montar o escritório, que também deveria servir de casa.
Sem entender muito sobre a cidade, alugou um apartamento na Rua Pedro I na Praça Tiradentes. Centro da cidade!! Não era o melhor lugar para se criar uma criança, porém era ponto de referência para se ter um escritório e, como o dinheiro era pouco...
Após algum tempo, a firma de livros importados começou a andar mal das pernas e, meu pai prevendo o seu fechamento, vendeu o seu carro, um fusca 67, e comprou mercadoria para trabalhar. Logo se especializou em livros odontológicos. Meu pai saía para vender os livros e minha mãe ficava no escritório atendendo os vendedores, que na época não eram muito, mas com o tempo aumentariam.
Quando a firma fechou, como havia previsto meu pai, ele já tinha montado a Livraria Pedro I e já caminhava sozinho.
Moramos no centro do Rio até eu completar 5 anos, nesse meio tempo nasceu meu irmão do meio e já não morávamos mais colados ao escritório e sim em outro andar do mesmo prédio, mas por essa época, meu pai já tinha toda uma estrutura formada e não precisava mais sair para vender e minha mãe não ficava mais no escritório. Foi então que meu pai arranjou um vendedor que morava em Niterói e falou da tranqüilidade de se morar lá.
Meu pai pretendia tirar o escritório da Praça Tiradentes e levar para um outro local de melhor acesso e mudar para um lugar mais tranqüilo. Foi quando nos mudamos para um apartamento no bairro Ingá, em Niterói e meu pai deslocou a sua livraria para a Cinelândia.
A livraria cresceu muito e, pelo que sei, vivíamos muito bem.
Acho que nem preciso mais continuar a minha narrativa, pois tudo que gostaria de apresentar ao leitor, eu já consegui.
Meu pai sempre foi um homem que teve sonhos e os colocou em prática e venceu os obstáculos. Está certo que o mercado não era tão concorrido com hoje, porém, abrir as portas também não é algo assim muito fácil.
Por que narrei toda essa história? Talvez para mostrar a minha passividade em relação à vida ou porque talvez eu tenha passado tanto tempo admirando os feitos do meu pai que não percebi que o tempo passou, que todos envelhecemos e que eu não sou mais aquela meninha que era só ter um problema corria para as asas dele.
Eu não tenho uma história como a dele para contar, mas eu gostaria muito que todos não se esquecessem de como ele foi e continua sendo importante em nossas vidas, pois muitas vezes esquecemos disso. Nenhum dos 3 filhos que ele teve foi sequer brilhante e genial como ele, passamos a vida em sua sombra e, agora que está doente, tentamos nos recuperar e fazer algo que os nossos filhos venham a se orgulhar no futuro, mas nunca, jamais conseguiremos chegar perto da sua coragem e brilhantismo.

3 comentários:

Roderick Verden disse...

Katia, q bonito. Não tenho muito o q dizer, só q gostei! Adorei mesmo sua foto com seu grande pai!

Abraços

Roderick Verden disse...

Ah,conheço bem o sinca. E na testa do seu pai está escrito 'gente boa'.

Katia Cristina disse...

Vc não sabe o quanto me dói olhar para essa foto...