sábado, 12 de dezembro de 2009

"Marcas do que se foi"



Hoje eu estava passando por umas fotos antigas de um amigo meu de faculdade e me deparei com a seguinte pergunta: - Quem roubou o sorriso dos nossos rostos?
Me lembro do tempo em que a gente estudava junto e o riso corria solto. Hoje, passando pelas fotos atuais desses mesmos amigos e não vejo sequer um sorriso sincero.
Onde foi parar a alegria que emanava a nossa vida?
Pensei que fosse coisa só de alguns e resolvi dar “uma passadinha” pelos álbuns de amigos que nivelavam idade comigo e cheguei à conclusão de que a grande maioria tinha o mesmo sorriso amarelo no rosto.
Não há nada mais bonito do que o sorriso de uma criança e vocês sabem por quê? Porque não conhece a felicidade. A criança simplesmente sorri.
Quando passamos a conhecer o sentido da palavra felicidade passamos a perseguí-la e quanto mais se persegue algo, menos se encontra.
Com o tempo, sentimos que nossos dias se tornam mais curtos, portanto, queremos a felicidade já, mas nunca a encontramos.
Nenhum de nós percebe quando exatamente isso acontece, mas acaba chegando para a maioria de nós.
Talvez se a vida fosse mais fácil, se não tivéssemos tantos problemas ou se conseguíssemos relaxar e esquecer tudo por parte do dia, mas os problemas nos acompanham até na cama.
Eu me lembro perfeitamente quando o meu sorriso se tornou falso: Foi quando tive que começar a mentir sobre a minha vida e como eu me sentia realmente, quando passei a esconder das pessoas que algo não estava bem.
Com o tempo eu virei a pessoa das respostas evasivas, aquela que gostaria muito que todos soubessem como se sente, mas que não tem coragem de contar.
A coisa começa assim: Primeiro a gente mente para si mesmo dizendo que tudo vai mudar e que as coisas vão ficar melhores, depois a gente mente para todos tentando esconder o fracasso.
De derrotas e de fracassos eu entendo bem, pois não tem sequer um sonho que eu tenha tido que tenha se tornado realidade.
Sou o tipo de pessoa que se comprar um circo o anão cresce.
Quais são os planos que você vai fazer para o Ano Novo?
Eu não vou fazer nenhum. Vou deixar os que estão arquivados falarem por si.
Quem sabe alguém resolva abrir a gaveta e me ajudar a concretizar algum?
Uma amiga me disse que as pessoas morrem quando deixam de sonhar. Se eu for acreditar nisso, no meu caso, só falta fechar o caixão.
Eu parei de sonhar no dia em que acordei e passei a enxergar a vida e as pessoas sem as suas máscaras.
A maneira mais fácil de ver através das máscaras das pessoas é ouvir rivais falando um sobre o outro.
Mas o que mais me impressiona mesmo são pessoas que sempre conseguem reverter os fatos ao seu favor. Essas pessoas são realmente muito engenhosas, pois “te chama de ladrão, bicha, maconheiro” e ainda consegue te convencer de que tinham razão!
Ah! A razão...
Tem pessoas que, não importam os fatos, sempre tem razão!
Essas pessoas se dão ao trabalho de procurar um fato, um motivo para terem razão.
Depois de muito refletir sobre a minha vida e sobre as pessoas que me cerca, cheguei à conclusão que ainda tenho uma meta a cumprir: Morrer e reencarnar em um cachorro, esses sim conseguem extrair o melhor dos seres humanos.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Retrato



Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
a minha face?
(Cecília Meireles)



video

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Teatro dos Vampiros - Legião Urbana



Composição: Renato Russo
Sempre precisei
De um pouco de atenção
Acho que não sei quem sou
Só sei do que não gosto...
E nesses dias tão estranhos
Fica a poeira
Se escondendo pelos cantos
Esse é o nosso mundo
O que é demais
Nunca é o bastante
E a primeira vez
É sempre a última chance
Ninguém vê onde chegamos
Os assassinos estão livres
Nós não estamos...
Vamos sair!
Mas não temos mais dinheiro
Os meus amigos todos
Estão procurando emprego...
Voltamos a viver
Como há dez anos atrás
E a cada hora que passa
Envelhecemos dez semanas...
Vamos lá, tudo bem!
Eu só quero me divertir
Esquecer dessa noite
Ter um lugar legal prá ir...
Já entregamos o alvo
E a artilharia
Comparamos nossas vidas
E esperamos que um dia
Nossas vidas
Possam se encontrar...
Quando me vi
Tendo de viver
Comigo apenas
E com o mundo
Você me veio
Como um sonho bom
E me assustei
Não sou perfeito...
Eu não esqueço
A riqueza que nós temos
Ninguém consegue perceber
E de pensar nisso tudo
Eu, homem feito
Tive medo
E não consegui dormir...
Vamos sair!
Mas estamos sem dinheiro
Os meus amigos todos
Estão, procurando emprego...
Voltamos a viver
Como a dez anos atrás
E a cada hora que passa
Envelhecemos dez semanas...
Vamos lá, tudo bem
Eu só quero me divertir
Esquecer dessa noite
Ter um lugar legal prá ir...
Já entregamos o alvo
E a artilharia
Comparamos nossas vidas
E mesmo assim
Não tenho pena de ninguém...

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Exigências da vida moderna - Luiz Fernando Veríssimo


Dizem que todos os dias você deve comer uma maçã por causa do ferro.
E uma banana pelo potássio.
E também uma laranja pela vitamina C.
Uma xícara de chá verde sem açúcar para prevenir a diabetes.
Todos os dias deve-se tomar ao menos dois litros de água.
E uriná-los, o que consome o dobro do tempo.
Todos os dias deve-se tomar um Yakult pelos lactobacilos (que ninguém sabe bem o que é, mas que aos bilhões, ajudam a digestão).
Cada dia uma Aspirina, previne infarto.
Uma taça de vinho tinto também.
Uma de vinho branco estabiliza o sistema nervoso.
Um copo de cerveja, para… não lembro bem para o que, mas faz bem.
O benefício adicional é que se você tomar tudo isso ao mesmo tempo e tiver um derrame, nem vai perceber.
Todos os dias deve-se comer fibra.
Muita, muitíssima fibra.
Fibra suficiente para fazer um pulôver.
Você deve fazer entre quatro e seis refeições leves diariamente.
E nunca se esqueça de mastigar pelo menos cem vezes cada garfada.
Só para comer, serão cerca de cinco horas do dia.
E não esqueça de escovar os dentes depois de comer.
Ou seja, você tem que escovar os dentes depois da maçã, da banana, da laranja, das seis refeições e enquanto tiver dentes, passar fio dental, massagear a gengiva, escovar a língua e bochechar com Plax.
Melhor, inclusive, ampliar o banheiro e aproveitar para colocar um equipamento de som, porque entre a água, a fibra e os dentes, você vai passar ali várias horas por dia.
Há que se dormir oito horas por noite e trabalhar outras oito por dia, mais as cinco comendo são vinte e uma.
Sobram três, desde que você não pegue trânsito.
As estatísticas comprovam que assistimos três horas de TV por dia.
Menos você, porque todos os dias você vai caminhar ao menos meia hora (por experiência própria, após quinze minutos dê meia volta e comece a voltar, ou a meia hora vira uma).
E você deve cuidar das amizades, porque são como uma planta: devem ser regadas diariamente, o que me faz pensar em quem vai cuidar delas quando eu estiver viajando.
Deve-se estar bem informado também, lendo dois ou três jornais por dia para comparar as informações.
Ah! E o sexo.
Todos os dias, tomando o cuidado de não se cair na rotina.
Há que ser criativo, inovador para renovar a sedução.
Isso leva tempo e nem estou falando de sexo tântrico.
Também precisa sobrar tempo para varrer, passar, lavar roupa, pratos e espero que você não tenha um bichinho de estimação.
Na minha conta são 29 horas por dia.
A única solução que me ocorre é fazer várias dessas coisas ao mesmo tempo!!!
Tomar banho frio com a boca aberta, assim você toma água e escova os dentes. Chame os amigos e seus pais.
Beba o vinho, coma a maçã e dê a banana na boca da sua mulher.
Ainda bem que somos crescidinhos, senão ainda teria um Danoninho e se sobrarem 5 minutos, uma colherada de leite de magnésia.
Agora tenho que ir.
É o meio do dia, e depois da cerveja, do vinho e da maçã, tenho que ir ao banheiro.
E já que vou, levo um jornal…
Tcháu….
Se sobrar um tempinho, me manda um e-mail.
(Luis Fernando Veríssimo)

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Apagão?


A marchinha critica a falta de água e luz na Cidade Maravilhosa, Vagalume, de Vítor Simon e Fernando Martins, uma marchinha lançada pelos Anjos do Inferno (e por Violeta Cavalcanti), foi uma das músicas mais interessantes do carnaval de 1954.
“Rio de Janeiro
Cidade que nos seduz
De dia falta água
De noite falta luz.

Abro o chuveiro
Não cai nem um pingo
Desde segunda
Até domingo.

Eu vou pro mato
Ai! pro mato eu vou
Vou buscar um vagalume
Pra dar luz ao meu chatô."



Depois do último apagão eu comecei a pensar na situação geral do Rio de Janeiro.
Quando a luz começou a piscar eu pensei: “Deve ser uma falta de luz normal, dessas que que a gente fica 15 minutos sem luz e depois volta”.
Hoje eu parei e pensei: “Normal?”
Eu pago a minha conta de luz rigorosamente em dia e faltar luz é normal?
Está certo que acidentes acontecem, mas já é tão regular a falta de luz que achamos normal.
Seria normal se me descontassem isso no final do mês!
Mas o meu caro leitor pode indagar: - Se o relógio não roda, a gente não paga.”
Correto, mas se falta luz com freqüência é porque alguma coisa está erra e a companhia de luz deveria nos dar algum desconto, algum ressarcimento pelo transtorno.
O que causou a falta de luz? Ninguém sabe ao certo.
Se fosse no tempo da ditadura certamente seria atribuído a algum “atentado comunista”.
A minha vizinha disse que na igreja dela o pastor afirmou que tal coisa foi obra dos “Iluminatis” e que “eles” já estão dando amostras de seu poder sobre nós.
Tudo resolvido pensei eu. Os “Iluminatis” são os comunistas da nova era.
No dia seguinte ao apagão, ouvi o presidente da CEDAE pedir aos moradores da cidade para economizarem água, pois o reabastecimento poderia demorar até 3 dias!
Perfeito! Um dia falta luz, no outro, água.
Tudo isso com as contas sendo pagas rigorosamente em dia.
Nem bem o Rio de Janeiro se recupero0u dessa tragédia, logo vieram as chuvas e a Baixada Fluminense ficou completamente alagada!
Ainda hoje não foi apurado nenhum fato em relação ao apagão, mas por quê se preocupar com uma notícia “tão antiga” se a cada minuto novas desgraças estão no noticiário nacional.
Ontem eu ouvi uma notícia no Telejornal do SBT que me deixou realmente preocupa: A fundação Cobra Coral foi chamada para analisar o fato.
Sempre imaginei que “forças do além” podiam influenciar nossa vida e sempre me taxaram de maluca, agora o senado está afirmando isso?
Em breve estaremos todos usando óculos especiais para ajudar espíritos a encontrarem o caminho da luz, pois se estão interferindo em nossa vida ao ponto de causar um apagão é porque tem mais espírito vagando pela terra do que seres vivos.
Tomem vergonha na cara!
O grande problema é que o vereador não cumpre o seu papel, o deputado também não, os senadores estão insanos, sem falar nos prefeitos, governadores,...
Os salários são pagos regularmente aos “funcionários públicos”, mas basta a gente reportar um problema qualquer que um órgão público te encaminha para outro, que te encaminha para outro, que te encaminha para o primeiro.
Temos problemas em todos os setores e tudo que conseguimos é mais uma taxa para pagar.
Pagamos apenas os salários dos “funcionários públicos”, pois na hora de nos servir, nada.
Nenhum setor público funciona!
Se precisarmos de um hospital, temos que pagar.
Quer matricular seu filho numa escola, pague.
Agora só falta termos que pagar os asfaltamento das ruas, pois a iluminação pública a gente já paga, mas é só queimar uma lâmpada que ninguém aparece para trocar.
Hoje apareceram jacarés na Baixada Fluminense. A instrução é que a população entre em contato com as autoridades competentes.
Autoridades nós temos muitas, difícil é ser competente.
Autoridade competente é aquela que, ao invés de te dar o telefone de outra repartição, anota a sua reclamação e encaminha para a repartição pertinente.
Não vejo solução para a falta de vergonha em nosso país, mas enquanto nada é feito, vamos cantando a antiga marchinha de carnaval e cada faça a adaptação conforme o estado em que reside.


terça-feira, 17 de novembro de 2009

Escrever é a minha terapia


Escrever é realmente melhor que terapia!
Ontem eu tentava contar para o meu marido um fato que me afligia e ele se lembrou de outro fato que era mais importante para ele falar do que me ouvir.
Esperei que ele contasse, embora tivesse me interrompido, para terminar a minha história. Lógico que ele se lembrou de outra coisa e me calei novamente, só que dessa vez suas palavras me soaram como: “Blá, blá, blá Whiskas sache”.
Depois da sua vigésima história eu já não tinha realmente vontade de falar mais nada, pois estava claro que não importava para ele.
Fui dormir frustrada, pois eu realmente queria ser ouvida. Queria exorcizar algo que estava dentro de mim.
Um misto de raiva, ódio e desilusão tomaram conta de meus pensamentos. Não conseguia entender porque ser ouvida era assim tão difícil, porque o que eu queria falar era tão insignificante.
Hoje ao acordar, me livrei das minhas “obrigações” rapidinho só para poder escrever.
Depois de conseguir finalmente colocar para fora tudo que me aborrecia, eu finalmente senti como se tirasse um peso das minhas costas. Como se tudo que me aborrecesse tivesse sumido por encanto e eu pudesse caminhar mais tranqüila.
Quando a gente passa a vida guardando coisas dentro da alma os dias se tornam pesados, cansativos. E não ter ninguém nesse mundo disposto a compartilhar isso com você vai te deixando frutado, mal humorado.
Ninguém, hoje em dia, quer mais compartilhar mais nada.
Ontem eu mesma deixei de compartilhar as história de meu marido à partir do momento que percebi que ele não queria compartilhar as minhas. Isolei-me em meu mundo de sonhos e pensamentos.
Alguém vai ler o que escrevi?
Não sei, mas tenho certeza que se alguém se der ao trabalho de chegar ao final do meu texto vai se sensibilizar de alguma forma com o que eu escrevi e meus medos e dúvidas serão compartilhados com alguém que realmente se importou.
A maioria das pessoas querem ser ouvidas sem sequer se darem ao trabalho de ouvir também. Outras tantas pouco se importam com os sentimentos dos outros.
Quando alguém não se importa em te ouvir é porque não se importa com você.
Escrever é a minha maneira de colocar para fora tudo que me assombra.
Todas as pessoas tem fantasmas que as assombram e esqueletos escondidos em armários e se não se consegue exorcizá-los acaba se tornando até uma pessoa mal humorada.
Desde menina que eu consigo me expressar melhor escrevendo do que falando. Talvez porque quando a gente escreve reflete melhor sobre o assunto e coloca as idéias em ordem.
Se existisse uma só pessoa que quisesse me compreender, bastaria acompanhar o que escrevo. Mais do que acompanhar essa pessoa deveria entender as entrelinhas, compartilhar de um sentimento.
Assim como me calo quando percebo que as pessoas não querem me ouvir, também nunca obriguei que os amigos lessem e comentassem o que escrevo. Eu escrevo porque me faz bem, porque passa uma borracha em tudo que me aflige, não para as pessoas lerem e pensarem: “Nossa! Come ela se expressa bem!”
Passei a minha vida no anonimato e nele hei de morrer. Nunca fiz questão em me destacar, em chamar a atenção. Os únicos seres desse mundo que me dedicam atenção incondicional são meus cachorros e isso me basta.
Quando eu percebi que algumas pessoas passavam pelo meu blog e podiam deixar comentários maldosos e, na maioria anônimo, passei a moderar e deixar de publicar.
Sinto muito, eu não sou e nem pretendo ser o centro do universo, sou apenas mais um ser que caminha por esse mundo e que gostaria que alguém realmente se importasse.


Histórias de Natal



Todos os anos, quando começa a chegar a época das festas de final de ano, eu começo a me sentir realmente triste.
É uma tristeza tão profunda que chega a doer e a me dar vontade de chorar.
Sempre foi assim e nunca parei para pensar porque isso acontecia.
Esse ano resolvi parar e me lembrar de todos os natais da minha vida para tentar explicar essa minha tristeza.
Todos os natais que conseguia me lembrar foram passados em um hotel em Lambari, cercada de gente estranha. Algumas a gente encontrava por tantas vezes que acabava fazendo amizade.
Puxando um pouco mais pela memória, me lembrei de umas férias em que a minha avó e a tia Aracy vieram passar conosco e daquela noite em que a vizinha do 13º andar, D. Alice, veio buscar minha mãe para atender um interurbano de São Paulo.
Meu tio Flávio tinha morrido.
Acontece que justamente no natal anterior nós passamos com ele e foi uma noite muito feliz para todos. Ele brincava com a gente como se tivesse a nossa idade. Fez chapéus e espadas de jornal para brincarmos de “marcha soldado”.
A princípio eu não conseguia me lembrar das coisas com riqueza de detalhes, até porque era muito criança na época, mas a memória da gente parece um emaranhado de fios que quando a gente puxa um para desenrolar a coisa vai se soltando e um fato puxa outro, que puxa outro...
Eu cheguei a sorrir, lembrando como me senti na época.
Acontece que depois daquele telefonema, nunca mais passamos os natais em família. Até porque meu pai é português e tem apenas um primo no Brasil, a esposa do meu falecido tio resolveu passar o natal com as irmãs dela e minha avó com a tia Aracy.
Depois do natal, a gente ia para a casa de meus avós em São Paulo e nos reuníamos para comemorar a passagem do ano, época que meu avô mais gostava.
Ainda consigo me lembrar dele nos esperando, sentado no alto da escada e, assim que nos avistava, vinha correndo nos abraçar.
Chego até mesmo me lembrar o cheiro de fumo de cachimbo que exalava de seu corpo quando nos abraçava.
Essas lembranças são tão preciosas para mim...
Quando meu avô morreu, minha mãe não viu mais sentido em se reunir com a família e decidiu prolongar a nossa estadia no hotel até o ano novo e convidar minha avó para ir com a gente.
Tudo ficou tão frio, tão impessoal...
Os presentes a gente recebia antes porque ia viajar. A ceia, as bebidas eram preparadas por pessoas desconhecidas. Tudo perdeu completamente a sua mágica.
Quando algo se quebra, não há mesmo como colar sem deixar marcas.
O grande problema do ser humano é que quando algo quebra por dentro, na alma, deixa marcas que nos acompanham a vida inteira, nos deixando sempre uma sensação ruim sempre que nos lembramos do fato.
Nesses últimos anos, tentei reunir o que me sobrou da família e acabar de vez com essa sensação de tristeza, mas ao longo dos anos mais coisas “se quebraram” na alma da gente e tudo que consegui foi juntar um bando de gente que preferia estar em outro lugar vestidos com o seu melhor “sorriso amarelo”.
Eu me sinto hoje como se tivesse, além de tudo, falhado com todos, pois prometi que “a maldição” ia acabar e isso não aconteceu.
Para o meu marido, essa é a época mais feliz do ano. Ele tem lembranças muito bonitas de sua infância, apesar de passar o natal no mesmo hotel que a gente.
Eu me sinto até um pouco egoísta em não compartilhar do mesmo sentimento, mas a verdade é que gostaria de ter lembranças mais felizes da época, mas tudo que consigo me lembrar é triste.
Sinto falta do tempo em que éramos crianças e, quando brigávamos nessa época, minha mãe obrigava a gente a fazer as pazes porque era natal!
Agora somos um bando de pessoas que acha que tem sua própria família e que não dá para ser feliz se a gente se misturar.
Ninguém tolera sequer um comentário de minha mãe, que já está idosa, sem transformar tudo em uma briga.
Eu queria poder dizer para não brigarmos no natal, justamente porque é natal!!
Queria poder colar os cacos da minha alma para não me lembrar de tantos fatos tristes justamente porque é natal.
Simplesmente não queria que todas as coisas ruins que aconteceram na minha vida fossem lembradas justamente nessa época.
Gostaria de me sentir feliz realmente e afastar, pelo menos nessa época, todos os meus pensamentos ruins e conseguir reunir toda a minha família, mas toda, incluindo os pais, irmãos, primos e tios de todos que entraram para ela.

Pedacinhos





Pra que ficar juntando os pedacinhos
do amor que se acabou
nada vai colar...
nada vai trazer de volta a beleza cristalina do começo
e os remendos pegam mal
logo vão quebrar...
afinal, a gente sofre de teimoso
quando esquece o que é prazer
adeus também foi feito pra se dizer
bye bye so long fare well
adeus também foi feito pra se dizer


Pra que tornar as coisas tao sombrias
na hora de partir
por que nao se abrir?
se o que vale é o sentimento
e nao palavras
quase sempre traiçoeiras
e é bobeira se enganar
melhor nem tentar...
afinal, a gente sofre de teimoso
quando esquece do prazer
adeus também foi feito pra se dizer
bye bye so long fare well
adeus também foi feito pra se dizer...




Guilherme Arantes

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Conto de fadas para mulheres do séc XXI - Luiz Fernando Veríssimo




Era uma vez, numa terra muito distante, uma linda princesa
independente e cheia de auto-estima que, enquanto contemplava a
natureza e pensava em como o maravilhoso lago do seu castelo estava de
acordo com as conformidades ecológicas, se deparou com uma rã.
Então, a rã pulou para o seu colo e disse: Linda princesa, eu já fui
um príncipe muito bonito. Mas uma bruxa má lançou-me um encanto e eu
transformei- me nesta rã asquerosa. Um beijo teu, no entanto, há de me
transformar de novo num belo príncipe e poderemos casar e constituir
um lar feliz no teu lindo castelo. A minha mãe poderia vir morar
conosco e tu poderias preparar o meu jantar, lavarias as minhas
roupas, criarias os nossos filhos e viveríamos felizes para sempre...

E então, naquela noite, enquanto saboreava pernas de rã à sautée,
acompanhadas de um cremoso molho acebolado e de um finíssimo vinho
branco, a princesa sorria e pensava: Nem fo...den...do!

(Luís Fernando Veríssimo)


terça-feira, 3 de novembro de 2009

Se alguém souber o que está acontecendo, me explica.



Nesse final de semana estava conversando com um amigo e ele me dizia que já tinha terminado o namora há mais de um mês.
Nada de mais se o celular dele não tivesse tocado pelo menos 10 vezes enquanto conversava comigo e se não fosse a ex.
Depois que ela ligou mais umas 15 vezes, ele resolveu atender para pedir que ela parasse de ligar.
Foi então que a coisa realmente ficou desagradável, pois ele gritava, falava palavrões, desligava o celular, ficava realmente alterado.
Esse rapaz me contou que desde que conheceu essa garota a sua vida virou um verdadeiro inferno e que ela não aceita o final da relação e que ele já está chegando ao ponto de registrar uma queixa na polícia.
O que leva uma pessoa a perseguir a outra dessa maneira?
Talvez ela ache que se deu mais na relação do que ele, mas há muito tempo descobri que a gente não deve se esforçar mais do que o necessário numa relação.
Eu conheço outro casal em que o marido não é capaz de fazer sequer um elogio para a esposa, pelo contrário, faz questão de tentar arrasá-la o tempo inteiro. O grande problema é que ela já se acostumou com seus insultos e não dá a mínima para isso.
Ele não é capaz de se sentir feliz com nenhuma conquista dela, mas fica radiante quando fracassa.
Ela me contou certa vez que caiu na asneira de falar para ele que seu blog tinha 20 seguidores. Ele ouviu aquilo e não fez nenhum comentário, guardou em silêncio e depois de um mês veio dizer que ela só estava satisfeita quando era o centro das atenções, mas que na verdade era uma fracassada, que a vida não mudava isso, nem com os 20 seguidores que tinha em seu blog.
Desnecessário dizer qualquer coisa sobre isso.
Hoje eu realmente me arrependo de não ter trocado meu curso para psicologia, pois gostaria realmente de entender o que está acontecendo com as relações.
Não conheço ninguém que diga com sinceridade que está feliz com seu relacionamento, mas venho notado o aumento de sociopatas em nossa sociedade.
Gostaria de entender o que leva uma pessoa a perseguir a outra no trabalho, em casa, nos bares onde freqüenta.
Queria saber o que leva uma pessoa ouvir um comentário comum, como esse do blog da minha amiga, e pensar que isso era apenas uma maneira dela se achar superior a ele.
No segundo casal o caso é ainda mais grave, pois a namorada desse meu amigo não esconde de ninguém aquilo que realmente é. Já o marido de minha amiga, se mostra fiel, prestativo, inteligente, mas basta conviver um pouco mais com eles que se percebe que é tudo mentira, que ele é incapaz de sequer entender o que significa a palavra casamento ou família.
Não sei se está relacionado à posse ou se realmente é fruto de uma doença mental, ou se faz parte de algum problema não resolvido em seu desenvolvimento emocional, mas a verdade que esses casos vêm se multiplicando de maneira assustadora.
Uma pessoa simplesmente cisma com você, te envolve em uma rede de mentiras e quando se sente totalmente seguro, põe as garras em você. Depois fica quase impossível se livrar.
O conceito geral de família, escola, respeito, se perdeu completamente ao longo dos anos e criou pessoas doentes, em um mundo doente.
Eu percebo a infelicidade nos olhos da maioria das pessoas.
Quando se é adolescente, não se consegue realmente ser feliz, mas passado esse período, as coisas tendem a se acomodar e as pessoas encontram a felicidade junto à família e amigos.
Onde as pessoas se tornaram tão doentes ao ponto de guardarem um simples comentário, imaginar que isso tornaria o outro feliz e tentar tornar em algo desagradável?
O que pensam pessoas que ouvem do outro que não existe mais relação e continuam ligando, importunando?
Se alguém souber como se processa a mente dessas pessoas, me explique.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Chaves de casa


Eu perco o chão
Eu não acho as palavras
Eu ando tão triste
Eu ando pela sala
Eu perco a hora
Eu chego no fim
Eu deixo a porta aberta
Eu não moro mais em mim

Eu perco as chaves de casa
Eu perco o freio
Estou em milhares de cacos
Eu estou ao meio
Onde será, que você está... Agora?
video

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Quando alguém realmente morre?



Ontem morreu a minha melhor amiga. Cometeu suicídio.
Foi uma coisa tão inesperada, pois ninguém, além de mim, sabia que ela teria coragem de fazer.
Mas o que me pergunto é: “Quando uma pessoa começa a morrer?” Quando uma pessoa se considera tão morta que tanto se faz se está ou não?
Ana não estava mesmo entre nós há muito tempo! Vivia deprimida, pelos cantos, já não conversava com ninguém.
De tanto insistir, consegui que se abrisse comigo algumas vezes, mas nunca falava completamente o que sentia.
O fato é que, ao se casar, Ana não sabia que o marido tinha tendências sadomasoquistas e, embora não praticasse com ela, a obrigava a ver cenas de vídeos, gravuras, fotos, como se fosse algo muito natural.
Ana o presenciava se masturbando ao ver filmes e se sentia humilhada.
De certa forma, João fazia com ela o que aqueles homens horríveis faziam com as mulheres, só que não fisicamente, apenas psicologicamente.
Ele a humilhava vistosamente.
Ana tentou dizer que isso a incomodava e que não precisava fazer isso de maneira tão acintosa, mas João parecia se divertir em se impor a ela.
E não foi apenas dessa maneira que ele se impôs a ela. Já não perguntava se podia mudar o canal de TV ou se podia usar o computador, apenas o fazia como se ela não fosse sequer uma pessoa.
Após revelar sua tendência à esposa, João não fazia mais questão de esconder isso de ninguém. O problema é que não explicava como administrava isso perante a família: Era uma verdadeira obsessão!
Assim que acordava, ligava o computador para visitar sites onde baixava vídeos e mais vídeos que depois eram convertidos em DVDs.
As coisas chegaram a um ponto em que João só conseguia transar com Ana após assistir um de seus DVDs. O grande problema é que Ana não conseguia mais transar após ver uma série de mulheres sendo espancadas e sangrando até a morte. Não transavam mais.
Ana sofria tudo calada.
Ninguém, além de mim, notou quando surgiram as primeiras marcas em seu pulso. Talvez tenha sido uma primeira tentativa de acabar com seu sofrimento.
Ninguém mais se mata cotando os pulsos. Até porque não é todo mundo que tem uma banheira em casa para acelerar a coisa toda.
Várias eram as maneiras que João usava para torturar Ana.
Quando Ana não queria fazer algum curso ou não queria prestar algum concurso público, João a acusava de ser covarde e a pressionava até que ela fizesse, mesmo que contraria. E, quando não ia bem, fazia chacota de seu fracasso.
Sua solidão era algo insuportável, mas Ana já tinha se acostumado com isso. Como se toda essa dor fosse a única coisa que ela merecesse na vida.
Ana já não estava viva há muito tempo. Qualquer traço de personalidade tinha sido apagado.
Apenas o que João importava era o que prevalecia.
Não a torturava com chicotes ou pregos, mas não permitia que sua personalidade existisse. A subjugava em todos os sentidos. Fazia mentalmente com Ana mentalmente o que via o que os doentes faziam com as mulheres dos filmes.
Eles tentaram terapia, mas João conseguiu convencer a terapeuta que talvez ele tivesse sido molestado quando criança, por isso se portava dessa maneira. Também a convenceu de que não passava o tempo todo apenas fazendo isso, Ana é que era possessiva e que queria atenção o tempo todo. Só não conseguiu definir qual o tempo que passava com sua família.
Ana desistiu da terapia antes de João, o que a fez parecer mais doente que ele.
E na verdade estava, pois era vítima de seus desvios de conduta.
Após a terapia, as coisas ficaram ainda pior para Ana, pois ela “teria sido incapaz de lidar com seus traumas”. Era covarde!
Passei os últimos anos ao seu lado ouvindo sua história.
Via Ana “se esquecer” até de tomar banho.
Vi Ana se transformar em uma pessoa triste e sem vida. Alguém que não se importava mais com nada, nem com ninguém.
Ontem todo esse sofrimento chegou ao final e talvez Ana possa descansar dessa vida insana que vinha levando.
João sugou todas as suas energias e não havia mais razão para Ana viver.
Não vou ao seu velório ou enterro. Não suportaria ver João se gabando por ter conseguido seus objetivos.
Descanse em paz, amiga e companheira.
Adeus.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Abaixo o romantismo



Na terça-feira estava assistindo uma matéria sobre violência doméstica e estava refletindo sobre uma coisa que tem me deixado intrigada há tempos e, de repente algo que uma das entrevistadas falou me chamou a atenção e voltei a refletir sobre isso.
Todo homem que mata a mulher costuma afirmar a sua defesa afirmando legítima defesa. Tentado provar que a mulher atacou primeiro.
Será realmente que todas as mulheres são realmente nervosas ou sofrem de problemas mentais?
Ou será que o homem quando encontra uma mulher que não consegue controlar tenta destruí-la?
Um fato é certo: As pessoas não mudam, apenas mascaram uma pseudo mudança.
E existem alguns seres que circulam entre nós que são chamados sociopatas.
A melhor definição que encontrei para sociopata foi dada ontem por uma entrevistada: “Ele é o cara”.
Ele jamais perde o controle na frete de outras pessoas, mesmo que o forcem. Está sempre pronto para ajudar quem quer que seja e é extremamente educado. Entretanto não tem a mesma atitude em relação à sua família.
O seu principal alvo é o cônjuge. Ele é capaz de provocar o suicídio de seu cônjuge!
O sociopata é uma pessoa extremamente inteligente, seu QI sempre é acima da média.
Ele só se importa com o que ele quer. Não importa quem tenha que destruir para isso.
Quem vive com um sociopata vive sempre no limite e se “estourar” é considerada louco, nervoso, doente perante todos que os conhecem. Ninguém, absolutamente ninguém vai acreditar que ele é o culpado, nem a sua mãe.
Encontramos mais sociopatas do sexo masculino do que do sexo feminino por simples fato: oportunidade.
Homens passam por violência doméstica?
Claro que passam, até conheci um caso que a mulher mandou o marido para o hospital.
Mas o que estaria acontecendo com nossa sociedade para que esses casos se tornem cada vez mais comuns?
Algumas pessoas podem até se iludir tentando afirmar que os casos de violência doméstica não aumentaram e que a diferença é que hoje tem mais divulgação, entretanto, os números mostram justamente o contrário. O número de mulheres agredidas aumentou e o fato vem ocorrendo com mulheres cada dia mais jovem.
O que ocorreu em nossa sociedade para disparar esse gatilho?
As mulheres há alguns anos não tinham direitos, a maioria não tinham sequer estudo. Mudavam de dono ao se casarem. A mulher que não se casava não tinha chance alguma.
Poucas foram as que se rebelaram e mesmo as que fizeram, só tiveram êxito porque foram apoiadas por homens que discordavam da situação.
As mulheres ganharam o direito ao voto recentemente. As solteiras e viúvas, isto é, as que não tinham “dono” começaram a votar em 1931, apenas em 1932 todas as mulheres passaram a ter direito ao voto. Isso certamente ocorreu por algum interesse político escuso, caso contrário nada mudaria.
Todos falam muito da escravidão e da situação do negro na sociedade atual, mas poucos analisam a situação feminina.
Mulheres continuam escravas até hoje! Mesmo as que trabalham fora, pois todas as situações que envolvem a casa e os filhos devem ser resolvidas por elas. Quantos homens vão à reunião de pais?
A verdade é que, perante a lei, a mulher adquiriu muitos direitos, mas, perante a sociedade a mulher continua sendo propriedade da casa e da família.
A grande diferença, que para mim é o que define o aumento da violência doméstica, é que hoje a mulher pertence ao lar e a família e não diretamente ao homem. Isso faz com que se sintam excluídos, diminuídos em sua masculinidade e, por isso, tenham que subjugá-la.
Estamos vivendo em uma sociedade onde o casamento virou um “cabo-de-guerra” onde quem não possui é possuído.
Na sociedade atual, onde os jovens começam a sua vida sexual cada dia mais cedo, estamos presenciando crimes passionais com mais freqüência, pois se não possuem mais a lei para a lei para apoio, usam a força.
A maioria dos casamentos dura, em média 10 anos, tempo suficiente para que o sentimento de posse passe a fazer parte do dia-a-dia do casal.
Alguns homens, ao perceberem que perderam “titularidade” de sua esposa, tenta destruir a estrutura familiar, exigindo a guarda compartilhada.
Poucos são os que realmente desejam a companhia dos filhos e os que querem realmente fazer parte da sua educação, a maioria quer, realmente, punir a ex com a ausência dos filhos.
Poucas são as mulheres que conseguem, na sociedade de hoje, se libertar da escravidão e mesmo as que conseguem são tratadas com pejorativos, nunca com elogios.
O homem sempre tem “um lado bom” e ninguém analisa os motivos que fizeram aquela mulher pedir a separação e, se recomeça a vida com alguém de situação financeira pior, ainda é chamada de burra, pois o ex podia destruí-la psicologicamente, mas pagava as contas.
Acredito em um mundo em que homens e mulheres possam conviver pacificamente, mas para esse mundo existir devemos esquecer as relações conjugais e existir mundos individuais onde cada um não abre mão de sua vida, em detrimento do outro.
Teremos um mundo onde o romantismo será banido, pois o romantismo é a principal arma masculina para subjugar a mulher.