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terça-feira, 18 de dezembro de 2012

A proporção


Marcolino era homem simples, de interiorzão mesmo, mas como a vida no campo ficou cada vez mais difícil, mudou-se para a cidade, na tentativa de melhorar de vida.
Acontece que a situação na cidade não era muito melhor do que no campo, ainda mais para uma pessoa sem estudo e sem experiência como ele, que tinha passado a sua vida toda num sítio que acabou perdendo para as dívidas do banco.
Morando de favor na casa de um amigo e sem ter mais a quem recorrer, Marcolino pega seus últimos centavos, compra um tacho e decide fazer o doce de goiaba que ele costumava ajudar a sua mãe a fazer.
Depois de pronto, Marcolino sai de porta em porta oferendo seu quitute que acabou "caindo no gosto do povo" que a cada dia queria mais.
Marcolino não dava conta de produzir doce para atender todo mundo e a goiaba na cidade não dava em árvores como no sítio, precisava ser comprada.
Marcolino nunca teve esse problema no sítio, pois quando não tinha goiaba, não se fazia doce, mas agora o doce era fonte da sua existência e precisava fazê-lo, estando ou não na época.
A goiaba foi ficando cara e Marcolino só viu uma maneira de continuar com a produção: Utilizar o velho truque de sua saudosa mãe de misturar abóbora no doce para ele render mais.
Certo dia, Dona Cecília reclamou com o rapaz:
- Marcolino, fala a verdade, você misturou abóbora nesse doce.
Marcolino sem graça por ser pego na sua trapaça, mas não querendo perder a cliente falou:
- Não, Dona Cecília, eu não coloquei abóbora no doce.
Dona Cecília insiste:
- Tem abóbora nesse doce, Marcolino!
Marcolino vexado, resolve confessar:
- Dona Cecília, a goiaba ficou muito cara, saiu da safra e tive que misturar a abóbora para manter o preço e a produção.
Com pena do rapaz, Dona Cecília argumenta:
- Meu filho, eu até entendo a sua dificuldade, mas tem que manter a proporção.
- Mas eu fiz isso!
- E qual foi a proporção?
- Eu fiz um por um!
- Como assim?
- Uma abóbora para uma goiaba!


segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

João valentão




João Manuel de Bezerra e Silva nasceu numa comunidade pobre e abandonada do Rio de Janeiro.
Nasceu pobre, negro e ganhou um nome horrível que seu pai lhe deu.
Aliás, pai que ele cresceu vendo beber e bater na sua mãe, e depois nele também, até que a sua mãe entrou para uma igreja evangélica e tentar converter seu pai, que acabou saindo de casa.
João era franzino, motivo de piada no colégio. Acabou ficando meio gago, coitado...
No colégio apanhava muito dos colegas - ainda não existia essa coisa de bullying - mas não reclamava, pois sabia que sua mãe trabalhava muito e chegava em casa cansada.
Sempre ia aos cultos com sua mãe, mas até lá, onde deveria estar entre os iguais era discriminado.
João não era filho único. Tinha três irmãs mais velhas que a mãe fazia questão de dizer que ele tinha de proteger porque "era o homenzinho da casa".
João não conseguia nem proteger a si mesmo!
Na igreja conheceu Maria do Carmo e com ela se casou.
Aos vinte e quatro anos, João estava casado e, aos vinte e cinco, nasceu sua primeira filha.
João tinha o atual ensino médio e trabalhava de muitas coisas: motorista, carregador, ajudante de pedreiro, qualquer coisa para sustentar a mulher - que engravidou antes de "terminar os estudos" - e a filha.
Mas João desenvolveu uma característica única: virou valentão apesar de meio gago, negro, razoavelmente baixo, meio vesgo e gordinho.
Acabou desempegado no dia em que a esposa descobriu ter engravidado novamente.
Aproveitou o plano de saúde para fazer o ultrassom e não contou para a mulher que estava "descoberto".
Como "desgraça" nunca vem sozinha, a mulher estava grávida de gêmeos! - não que gravidez seja uma desgraça, só que não era o momento.
João se desesperou, procurou emprego e aceitou o que tinha - pelo menos mantinha o plano de saúde.
João era motorista, a esposa não arrumava emprego por causa da baixa qualificação e os filhos - embora a mãe religiosa estivesse designada a "tomar conta" - emprego jamais.
A esposa resolveu fazer um curso no Senac.
João, embora não pudesse, pagou...
Mas o emprego que "arrumou" antes dos gêmeos nascerem estava cobrando "especialidades"  e João tinha.
A esposa fez o curso e espalhou currículos que fizeram ela a trabalhar em telemarketing, mas "tá tudo bem", estava aumentando o orçamento.
O grande problema surgiu quando viu que na empresa que trabalhava não poderia subir sem qualificação.
Resolveu fazer um curso, a empresa ajudou a pagar, embora o encarregado tivesse dito que esse tipo de cargo era terceirizado.
As coisas começaram mal, embora tenham aceitado o seu cartão de crédito, não tinha turma.
Logo na primeira aula, João se sentiu deslocado, viu que não ia se enturmar.
Quando os grupos ainda estavam se formando, ocorreu a primeira das várias confusões em que ele se envolveu.
João se desentendeu com um aluno mais novo que o chamou para acabar a briga fora das instalações do curso e, é claro que ele não foi.
João, como em todos os lugares que frequentava,  conseguiu desagradar todos na turma!
Mesmo quem não teve problemas com ele, não se aproximava, por medo.
João só "arrumava briga"  com os homens da turma, mas a coisa já estava aborrecendo a todos e uma mulher da turma resolveu encará-lo.
A coisa ficou realmente feia porque ele ameaçou bater nela.
Bem, a turma já tinha excluído ele, mas ele despertou a fúria de uma pessoa que vinha se mantendo "discreta": Maria Rita Maia Resende.
Maria Rita era uma espanhola, viúva de um  policial e que conhecia bem os desmandos de um homem sem controle. 
Como "todo oprimido é um opressor em potencial", Maria Rita passou a ser a "protetora" da jovem - uma vez que os pais não acreditaram na versão dela.
"Todo oprimido é um repressor em potencial".
Maria Rita era filha de pais repressores, aliás, foi por isso que resolveu apoiar a menina que tinha idade para ser sua filha.
Maria Rita provocou João, que, por incrível que pareça, evitava o confronto. 
Tudo tem um limite e ela sabia levar uma pessoa a esse limite.
Um dia João resolveu responder bem mais timidamente do que fez com a garota mais nova, parecia temer o conflito, e, com razão.
Maria Rita foi até a direção do curso e, quando viu desinteresse sobre o caso, ameaçou ir até a delegacia mais próxima dizendo se sentir ameaçada.
Ameaçada?  Maria Rita?
A direção do curso fez João se dobrar e admitir que a sua atitude estava errada e que aquele não era local para "enfrentamentos".
Até o final do curso João se conteve, mas tudo que ele queria era matar Maria Rita!
Conclusão: Não há nada que um homem possa fazer, que uma mulher não possa fazer duas vezes pior.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

"Porque o perdão também cansa de perdoar"



Angelina nunca fora a preferida de sua mãe.
Primogênita de uma família cinco filhos, Angelina fazia de conta que era feliz, apesar dos pesares.
As mágoas acumulavam, mas não havia o que fazer.
Certa vez, a família fez um passeio por uma feira de artesanato e Angelina se apaixonou por casal de Pierrôs em porcelana, mas não tinha dinheiro suficiente para comprar. Angelina "namorou" os bonecos, contou seu dinheiro mais de dez vezes e chamou a mãe e explicou a situação. A mãe olhou os bonecos, pediu dinheiro ao pai de Angelina e comprou.
Ao chegar em casa, a mãe de Angelina pendurou os dois bonecos na parede de seu quarto como um troféu e isso deixou a menina magoada.
A menina cresceu assim: Sempre ouvindo que a sua inteligência era na média, que era uma aluna mediana, que não era boa em nada e que este ou aquele irmão era melhor que ela em alguma coisa.
Talvez por isso tenha casado cedo, para fugir de onde não era desejada.
Com o casamento, sua relação com sua família ficou mais complicada ainda, uma vez que sempre preferiu morar relativamente longe, porém, sempre que se encontravam, Angelina percebia que nem a saudade fazia com que fosse tratada melhor por sua mãe.
Os irmãos de Angelina foram se casando e se mudando, exceto o irmão mais novo, que preferiu ficar solteiro.
Como todos os outros irmãos mudaram-se para longe, Angelina se sentia um pouco menos desvalorizada na casa de sua mãe e, pensou que tudo poderia ser diferente dessa vez.
Apesar de tudo, a mãe de Angelina continuava a fazer diferença entre ela e o irmão, mas ela se conformava, pensando que era justo, já que ele morava com a mãe.
Não se sabe se foi "cafezinho temperado", "macumba da braba" ou por idiotice aguda, mas do nada, seu irmão resolve se casar com um mulher que mal conhece e conta uma história triste para todos sobre a moça e a mãe de Angelina mais uma vez apóia seu filho, apesar dos protestos da moça - que a essa altura nem era mais tão jovem assim.
Tudo mudou novamente e Angelina percebeu isso quando foi na casa da mãe e abriu a caixa com os dois brincos que a mãe disse que tinha comprado para ela e só havia um. A mãe disse que se enganou em falar que eram dois.
A mãe ofereceu inclusive a joia de família que foi usada e dada para Angelina no dia do seu casamento - isso sem consultar a filha que, lógico não queria emprestar e se sentiu ofendida da mãe ter oferecido algo que era seu sem lhe consultar.
Na semana do casamento, o mesmo e curioso fato dos bonecos de porcelana aconteceu, mas com outro objeto, claro.
Angelina percebeu que, não adiantava o que fizesse, não importava quem, mas sempre a sua mãe ia dar preferência a outra pessoa que não fosse ela e decidiu que era hora de parar de lutar contra o inevitável e deixar sua mãe com "seus preferidos".
Algumas vezes não adianta remar contra a maré...
Angelina seguiu sua vida sem olhar para trás e sem remorso, afinal, sempre que precisou da mãe ela tinha algo mais importante para fazer ou para pagar e não podia ajudar, enquanto dava presentes caros para seu irmão e cunhada porque eles eram bons para ela...
Era o fim da linha para ela, não ia mais se humilhar por mais nenhuma migalha que viesse de sua mãe.
Inconformada, pois queria manter as aparências para a recém chegada à família, a mãe de Angelina tentou de tudo: chantagem emocional, tentou obrigar Angelina, compra a moça, só não tentou dar amor e compreensão e Angelina não voltou atrás.
Angelina queria apenas ser amada de forma igual em sua família, mas isso nunca aconteceu. Apesar de se sentir triste, era a sua realidade e não podia mudar isso. Não se pode exigir amor de ninguém...



quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Palhaço Fofoquinha






Fofoquinha nasceu e cresceu dentro do circo. Foi seu pai quem escolheu o nome e decidiu como seria o espetáculo: O menino deveria aprender a chegar pisando tão de mansinho e tão escondidinho que surpreenderia a público, não importa em que lado do picadeiro estivesse sentado.
Fofoquinha passava os dias treinando o andar leve e surpreendia a trupe o tempo inteiro.
Como chegava sem ser percebido, acabava ouvindo coisas que não devia. Ouvia e falava, acabando sendo o centro de todas as confusões que aconteciam entre os componentes do circo.
As pessoas já tremiam com a sua presença! 
Fofoquinha cresceu, se tornou mestre na sua arte, mas foi odiado por todos com quem convivia.
Quando se tornou adulto, Fofoquinha resolveu tirar proveito da sua arte de chegar sem que fosse percebido para obter lucro fazendo chantagens, primeiro com os integrantes do circo, depois com os comerciantes das cidades por onde o circo passava.
Na passagem por Turumirum, Fofoquinha encantou-se pela filha do dono do armazém no dia em que ela veio assistir ao espetáculo, mas sabia que o namoro não seria aprovado pelo pai da moça, portanto, resolveu seguí-lo para obter alguma vantagem extra.
Logo Fofoquinha descobriu que o pai da sua pretendida tinha uma paixão secreta pela mulher que trabalha na secretaria da igreja local, quinze anos mais nova que ele, e que se encontravam secretamente na sacristia da igreja, tendo como fruto dessa relação uma linda menina de cinco anos chamada Alizandra.
Foi o suficiente para garantir o namoro, o noivado e o casamento que aconteceu no mês em que o circo ficou na cidade.
Casado, Fofoquinha tinha pouco o que fazer, pois a cidade era pequena e o sogro sempre deu conta do pequeno armazém. Passava o dia tomando conta da vida da coitada da mulher que passava o dia olhando por de trás dos ombros tentando surpreender o marido.
Ao irem se deitar, Fofoquinha fazia o relatório para a esposa:
- Rosinha, ocê sabe que hoje descascou a cenoura e jogou um pedação bom fora? Ocê colocou muita manteiga na farofa, num podi disperdiçá!
A mulher não aguentava mais aquele controle, mas a cada dia, Fofoquinha trabalhava menos - até porque o sogro não queria a sua presença na venda - e mais vigiava a mulher.
Toda noite era a mesma a coisa e a esposa começou a ficar cada dia mais irritada e nervosa, pois os relatórios passaram a ser em tempo real, isto é, no momento em que estava acontecendo.
Como a mulher começou a protestar, Fofoquinha passou a falar sozinho. Porém, o que era para ser apenas um sussurro era ouvido como se fosse uma conversa. Fofoquinha reclamava, falava, discutia, respondia e tudo ao som alto, como se tivesse falando com alguém.
Quando o sogro morreu, Fofoquinha teve que assumir o armazém, entretanto, o lucro diminuía a cada dia, pois o que o palhaço realmente gostava de fazer era controlar a vida da mulher e de tudo que acontecia na casa.
Divido entre o armazém e o controle da mulher, Fofoquinha parecia estar enlouquecendo.
Não demorou para sua mulher começar a fumar e a beber. Mas até isso o marido controlava:
- Muié, cê sabia que esse é o 10º cigarro que ocê fuma? E que ontem ocê conseguiu beber meia garrafa de cachaça?
O tempo foi passando e a mulher achava que ia enlouquecer com tanto controle.
Um dia, o circo em que Fofoquinha foi criado voltou á cidade e os dois foram assistir.
Quando o circo foi embora, Fofoquinha só deu conta da falta da mulher no final da tarde, pois passara o dia deprimido no balcão do armazém.
Rosinha fugiu com o circo, casou-se com o atirador de facas, mas dessa vez quem falava grosso e impunha respeito era ela.
Fofoquinha? Continuou pendurado no balcão do armazém observando a vida sem participar dela.




terça-feira, 9 de outubro de 2012

Crônica da infelicidade




"- Ridículo, só se for você sem roupa! Tu é feia prá caralho!"
Foi assim que Betinho terminou mais uma discussão com Albertina.
Na verdade, não tinha sido nem uma  briga, pois para que isso seja possível, tem que ter pelo menos duas pessoas envolvidas, mas Betinho esbravejava sozinho e falava todo tipo de impropérios possíveis e imagináveis, tentando fazer com que sua companheira se sentisse diminuída e infeliz. Mas isso nem de longe afetava a mulher que se acostumara com as ignorâncias do marido.
Dessa vez tudo começou com o presente de aniversário que Betinho deu para a esposa...
Como sempre, Betinho comprou algo que a esposa estava precisando, porém, não perguntou se era o modelo desejado por ela e, mais uma vez não serviu e não agradou.
Assim que abriu o presente, Albertina pensou em perguntar se dava para trocar, mas preferiu não falar nada para não dar confusão. Tentou usar o presente, porém não servia para a sua necessidade e foi ai que o marido tentou "fabricar" uma peça em casa para "adaptar" ao presente e Albertina se negou a usar coisa tão feia e tão pesada. E foi assim que tudo começou...
Imediatamente, Betinho quebrou "a peça" no joelho e chamou a mulher de ingrata. Logo após, começou com os ataques pessoais a que estava acostumado, chamando a mulher de louca, demente e dizendo que ela era uma nada, um zero á esquerda.
Acostumada com tudo isso, Albertina não falou nada e se recolheu aos seus aposentos, onde ouviu o marido proferir "palavras de carinho" durante todo o dia.
A noitinha, a mulher conversava com seu filho sobre trivialidades, quando Betinho achou que estava falando dele e logo reiniciou seus ataques, quando finalmente a esposa aplaudiu e disse uma única palavra: "ridículo".
"Ridículo só se for você sem roupa! Tu é feia pra caralho!"
Ouvindo aquilo, Albertina esperou o dia seguinte, quando o marido saiu para trabalhar, e retirou tudo que era importante para ela daquela casa: filho, cachorros, plantas, ..., deixando Betinho completamente sozinho com suas grosserias.
Não demorou muito para a casa ruir, Betinho se tornar alcoólatra, o quintal se encher de lixo...
E Albertina? Ah! Essa vai muito bem, obrigada, pois não tem mais que não tentar enlouquecer ao lado de uma pessoa que nunca lhe teve a menor consideração.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Um assalto que deu errado





Dona Zilda era uma senhora muito independente: Viajava sozinha de São Paulo para o Rio de Janeiro sempre que um neto fazia aniversário ou quando a saudade apertava.
Toda vez que estava no Rio sua filha alertava sobre o perigo da cidade e pedia para que tomasse muito cuidado com a bolsa e para que deixasse “o maldito relógio de ouro” em casa.
Dona Zilda dizia para a filha não se preocupar porque ela estava sempre atenta e que seu relógio era tão pequeno que ninguém nem notava.
Naquele dia, Dona Zilda tinha decidido que iria para o centro passear e comprar umas “lembrancinhas” para levar para os amigos em São Paulo, já que a data da sua volta já estava marcada.
Como de costume, sua filha alertou para o perigo de andar sozinha e pediu, mais uma vez, para que ela deixasse “o maldito relógio” em casa.
Decidida, Dona Zilda repetiu para a filha que sempre andou sozinha e estava atenta a tudo.
Como estava acostumada, colocou em cima da cama a roupa, o relógio e a bolsa, deixando no chão o sapato que iria usar. Tomou seu banho e pegou seus pertences e foi para as compras.
Passou o dia procurando por coisas que não encontrava em sua cidade, mas não comprou nada muito caro, pois só afilhados, tinha 19.
No final do dia pegou o ônibus para casa, como de costume.
Dona Zilda estava sentada na janela e se distraiu com a paisagem quando sentiu algo puxar o seu braço esquerdo, olhou e viu que seu relógio tinha desaparecido. Reparou que o rapaz sentado ao seu lado guardava algo em sua mochila.
Dona Zilda olhava para seu braço, encarava o rapaz ao seu lado – que desviava o olhar em atitude suspeita – e não conseguia acreditar no descaramento do rapaz.
Depois de algum tempo Dona Zilda resolveu reagir e pegar seu relógio de volta, pois ela não agüentaria a sua filha olhando para ela “cheia de razão”.
Dona Zilda olhou para o rapaz e falou com um olhar mais do que sério:
- Eu sei o que você fez.
O rapaz olhou para aquela senhora desconhecida e fez aquela cara de: “Será que é comigo?”
Dona Zilda estava realmente decida. Olhou de novo e falou:
- Eu não vou fazer escândalo. Não quero que te machuquem. Vou falar apenas uma vez. Eu vou abrir a minha bolsa, você coloca o relógio dentro e desce no próximo ponto.
O rapaz sem entender pergunta:
- Como?
Dona Zilda responde:
- Como eu falei da primeira vez. Você coloca o relógio na minha bolsa e desce no próximo ponto. Para você não ficar com vergonha eu abro a bolsa e olho pela janela enquanto você faz o certo.
O rapaz fez tudo como Dona Zilda mandou.
Quando chegou a casa, Dona Zilda resolveu contar a sua “aventura”.
Quando terminou, sua neta contou que havia algo errado, pois o relógio de sua avó estava em cima da cama.
Dona Zilda correu para o quarto que ocupava quando estava na casa da sua filha e ficou espantada ao ver o seu relógio em cima da cama.
Dona Zilda abriu a bolsa e soltou um grito de desespero:
- Eu o assaltei!
Todos na casa não entenderam nada, mas Dona Zilda continua a olhar para a sua pequena bolsa e repetir:
- Eu o assaltei! Eu assaltei o rapaz!
Depois de ficar desconsolada por alguns momentos, Dona Zilda deixou seu corpo despencar no sofá e sua bolsa cair no chão.
Mariana, neta de Dona Zilda, resolveu olhar a bolsa da avó e ficou surpresa ao ver um enorme relógio masculino dentro dela.
Após a estranha aventura, Dona Zilda resolveu ficar em seu quarto até o dia da sua partida.
A família fez o possível para localizar o pobre do garoto. Até anúncio no jornal colocaram, mas infelizmente não foi possível.
Meses depois, quando Dona Zilda retornou ao Rio de Janeiro, não possuía mais o relógio de ouro, decidira vender e repartir o dinheiro entre os netos.
Quanto ao relógio roubado, bem, este continua guardado como prova da grande aventura vivida por Dona Zilda.


domingo, 17 de abril de 2011

Piada sem graça






Aracy era uma pessoa bem humorada e que vivia contando piadas.
Fazia piadas com o chefe, com os amigos, com os parentes, enfim, com todos.
Certa vez, o seu chefe lhe chamou em sua sala muito irritado e apontava o dedo em rosto enquanto falava.
Aracy não resistiu e mordeu o dedo do chefe.
As irmãs morriam de vergonha dela, pois Aracy não respeitava casamentos, batizados e velórios. Em todos os lugares em que ia sempre tinha um repertório imenso de piadas que fazia todos rirem sem parar.
Quando a cunhada de sua irmã faleceu, a família encomendou o velório em um sobradinho de escadas estreitas no centro de São Paulo.
Aracy pegou um taxi, foi à casa de uma irmã para buscá-la e foi para o tal velório.
Como era de praxe, as irmãs se aproximaram do caixão para olhar a falecida para fazerem os comentários habituais sobre a qualidade do caixão, tipo de flores, roupa que colocaram na falecida...
A sala era meio apertadinha, mas Aracy arranjou um lugar para sentar ao lado de sua irmã e logo começou a lembrar de piadas sobre velórios, defuntos e viúvos.
Não demorou muito para a família “se juntar” em volta dela para ouvir as tais piadas.
O grupo estava a gargalhadas e a família da falecida já estava olhando feio para eles.
Foi quando uma das sobrinhas de Aracy chegou com olhos arregalados e comunicou:
- Tia, a senhora está contando piada tão alto que até a falecida está rindo!
- Como assim? – perguntou Aracy.
- É verdade!  Acabei de passar pelo caixão e tive a impressão de que ela riu para mim. – afirmou a sobrinha.
Aracy levantou discretamente e foi conferir.
Quando voltou, Aracy estava com a cara mais assustada desse mundo.
Aracy chegou bem perto do ouvido da irmã e falou para ela não se assustar e se levantar bem devagarzinho para irem embora, pois teve a impressão de ver a  morta se mexendo.
Luciana, achando ser mais uma piada da irmã, não deu ouvidos e continuou sentada onde estava.
Não demorou muito as duas ouviram um grito de horror, olharam para o caixão e a falecida estava sentada nele.
As pessoas ficaram enlouquecidas começaram a se espremer pela escada apertadinha, se acotovelando, se empurrando e as duas irmãs ficaram quietinhas em suas cadeiras esperando a confusão acabar.
Luciana tapava o rosto com medo que a morta falasse ou tentasse mais alguma coisa além de sentar.
A polícia foi chamada, o corpo de bombeiros foi chamado, pois na tentativa de saírem todas ao mesmo tempo, muitas pessoas ficaram machucadas e um senhor de idade avançada teve um infarto.
Após o término da confusão, Aracy chegou perto do corpo e viu que tudo não passou de um espasmo, já que ela morrera em sua cadeira de balanço e o corpo estava voltando à posição em que morreu.
Pelo sim, pelo não, desse dia em diante Aracy nunca mais contou piadas em velórios, vai que o defunto resolva sentar para ouvir.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Anonimato






José Feliciano era menino franzino.
Vindo da Paraíba com seus pais para morar na Favela do Peixe, no Rio de Janeiro, não sabia ler nem escrever, mas já sabia o que era sofrimento.
Era o único filho que sobreviveu à fome da seca e a única esperança de seus pais sofridos.
Seu pai, Pedro, trabalhava na obra do metrô e sua mãe Maria, como tantas Marias, trabalhava em casa de “madame”.
Zézinho foi para escola “para ser doutor”, mas tudo que conseguia era que as outras crianças fizessem chacota dele.
O menino cresceu.
A mãe morreu de “bala perdida”, o pai se entregou à bebida e morreu de desgosto.
Um dia o José comprou uma arma, invadiu a câmara de deputados do Rio de Janeiro e matou trinta e cinco pessoas até que fosse detido e suicidassem ele.
Antes de morrer ele lembrou-se que tudo que ele sonhava quando era criança era poder ser doutor e comprar uma casa para os pais dele morar.




Imagem: Google

Encontro de primavera






Foi no velório de Márcia que João e Adriana se encontraram.
Adriana tinha sido madrinha do casamento dos dois e agora Márcia se fora, deixando um vazio na vida dos dois e da pequena Angélica, que mal entendia o que estava acontecendo.
- Mamãe está no xéu – dizia a pequenina para todos.
Adriana passou a visitar a pequena quase todos os dias e João se acostumou com a sua presença pela casa.
O tempo passou e, após dois anos de convivência, João e Adriana resolveram se casar e acabar de criar a pequena Angélica juntos.
Embora não quisesse tirar a pequena da sua confortável casa, Adriana achou melhor não viver na mesma casa que a amiga e resolveu vender a casa e mudar-se para um bairro mais afastado, porém mais calmo.
Logo que chegaram com a mudança caiu uma tempestade.
Adriana achou que era sinal de boa sorte, pois a chuva lavaria tudo que ficou para trás, mas logo um vento forte bateu fazendo com que a veneziana batesse na parede do lado de fora, quebrando-a e fazendo com que a chuva entrasse e molhasse várias caixas com roupas e livros.
Adriana ficou chateada, mas acabou se conformando.
Adriana e João levaram semanas para colocar todas as coisas no lugar, mas se sentiam felizes, pois finalmente tinham espaço para fazerem um belo jardim.
Aos finais de semana, a família saia para comprar mudas para plantar em seu quintal.
Apenas três meses após a sua mudança, a bóia da caixa d’água estourou e, mais uma vez, tudo ficou alagado e novas perdas vieram.
Os problemas com vazamentos pareciam insolúveis!
Foi quando começaram os problemas na parte elétrica da casa.
Adriana e João não entendiam como uma casa recém construída podia dar tantos problemas, mas ainda assim tentavam resolver.
Mal “tapeavam” um problema, aparecia outro e mais outro.
A umidade da casa acabou sendo favorável aos cupins que destruíram todos os móveis da casa.
Adriana não conseguia mais trabalhar! Estava mesmo desanimada! Tinha dias que mal conseguia se levantar da cama.
Logo começaram as brigas. O casal não se entendia mais.
Os problemas se acumulavam, o belo jardim ficava cada dia mais abandonado, o tempo passava e Angélica crescia sem que ninguém desse conta disso.
Nada mais parecia normal!
Adriana começou a beber, fumar demais e pouco se importava mais com nada, pois, por mais que tentasse fazer, algo sempre dava errado e nunca conseguia ter uma vida normal.
Eles perderam tudo, até sua dignidade.
Os anos passaram e Adriana só se deu conta disso quando Angélica veio lhe contar que estava grávida.
Tudo parecia um caos na vida daquela família até que a criança da Angélica nasceu.
Quando Angélica entrou com sua linda menina pela porta foi como se uma imensa luz clareasse todo o ambiente.
Adriana e João se olharam e não se reconheceram, pois tinham envelhecido enquanto lutavam para permanecer vivos.
Nunca mais os problemas se eternizaram e a luz emanada da pequena Jéssica trouxe paz para a vida daquela família.



Imagem: Google

terça-feira, 29 de março de 2011

Assombração do Rio da Prata





Pedro e Bia se conheceram na década de 40, na pracinha de Bangu em um Dia de Finados.
Era comum, na época, as moças e os rapazes passearem pela pracinha e trocarem olhares, conversarem e depois marcarem para que o rapaz conhecesse a família da moça para um possível namoro.
O namoro foi aprovado pela família de Bia, já que o rapaz parecia ter boas intenções, era educado  e, afinal, o namoro seria monitorado pela irmã mais nova de Bia, Carol, que não era muito fácil de ser enganada.
Pedro vinha todas as quartas-feiras, sábados e domingos.
Todas as vezes, vinha de trem para Bangu, já que morava no centro da cidade do Rio de Janeiro.
O namoro não era nada emocionante, já que Carol fazia questão de falar o tempo todo e não deixava o casal nenhum minuto a sós!
Todas as vezes Carol perguntava sobre o caminho que Pedro fazia para pegar o trem, perguntava sobre a casa 227 que ficava na Rio da Prata e que todos diziam ser mal assombrada.
Pedro passou a prestar mais atenção no caminho e notou que a casa parecia abandonada, com mato crescendo no jardim, luzes sempre apagadas...
Começou a pensar sobre o porquê de a casa estar assim e, já que não tinha como “se livrar” da Carol, resolveu pedir à menina que contasse detalhes sobre ela.
Carol lhe contou que o dono da casa tinha morrido escorregando da escada em circunstâncias duvidosas e o espírito dele estava revoltado e precisava contar para alguém o que tinha acontecido realmente.
Pedro sempre ia assoviando durante o caminho, mas quando chegava ao quarteirão da casa, ficava cabisbaixo, como se não quisesse ser o escolhido para ouvir a confissão do morto, ou talvez fosse respeito, quem sabe.
A verdade é que a história ficou na mente de Pedro e, mais do que namorar, ele queria ouvir as histórias da Carol sobre a casa.
Tinha respeito por ela, já que o seu morador morreu e foi velado nela.
Ele tinha respeito por essa coisa de morte, pois seu pai morrera quando tinha 9 anos e, muito cedo, aprendeu que a vida era difícil.
Pedro e Bia ficaram noivos e ele conseguiu dar o primeiro beijo no rosto em sua amada!
Não tinha dinheiro para um anel, mas prometeu que valeria a pena ficarem juntos.
Bia, que nem por um minuto duvidou que a vida com Pedro era tudo que ela sempre quis, aceitou a situação, com a certeza que a vida com Pedro valia à pena.
Saindo da casa de Bia, após o beijo que queimava seus lábios, Pedro foi distraidamente pela rua da casa mal assombrada, não assoviou, nem antes, nem depois de passar pela casa e “tomou um tapa na cara”.
Foi um tapa tão bem dado que no dia seguinte o seu rosto ainda estava vermelho!
Não contou a ninguém sobre o que aconteceu, embora a família de sua noiva acreditasse em espíritos e casas mal assombradas.
Passou dias tendo que passar pela rua em que tomou o tapa ressabiado, mas era o único caminho para ele, mas preferiu assoviar para espantar o medo.
Um dia, ficou pensando que o namoro estava se tornando sério e não assoviou...
Pedro ouviu um barulho que parecia um passarinho voando bem perto ao seu ouvido, mas passarinho que voa a noite é, quase sempre, morcego!
Pedro chegou à conclusão de que não tomou tapa nenhum, que tinha sido apenas um maldito morcego que estava acostumado a fazer o mesmo caminho todas as noites e, naquela noite, a do tapa,  tinha alguém no seu caminho.

sexta-feira, 25 de março de 2011

A maldição





No centro da Praça Pasteur, na cidade de Petrópolis tinha uma linda casa para alugar.
Com sua varanda em arco com uma linda trepadeira de flores lilases e sua cadeira de balanço era convidativa a um descanso de fim de tarde.
A casa era mesmo uma belezinha!
Os muros baixos sugeriam que o bairro não era violento e, apesar de não ter sido pintada recentemente, não tinha pichações!
Era do tamanho ideal, nem muito grande, nem muito pequena.
Maurício, Alessandra e seus dois filhos mudaram-se para lá e quatro meses depois estavam negociando com a imobiliária para mudarem-se para outro local.
A casinha continuava lá e mais um casal com seus filhos mudou-se e, mais uma vez saiu o mais rápido que pode.
Durante um ano mais de cinco famílias havia passado pela casa, ninguém queria ficar.
Nelson, corretor do imóvel não sabia mais o que fazer para manter os inquilinos.
Todos os dias ia ao imóvel e olhava para ver se o encanamento estava em ordem, se a vizinhança fazia muito barulho, nada.
Chegou a dormir na casa, achando ser mal assombrada e nada.
Foi quando seu melhor amigo, Luciano, resolveu se casar e convidá-lo para padrinho de casamento.
Maurício, que não andava muito bem de finanças, resolveu dar ao amigo um ano de aluguel de graça na bela casinha da Praça Pasteur.
Luciano, que ia morar com a sogra, achou a idéia espetacular e levou a futura esposa mais do que depressa para conhecer o que viria a ser o seu novo lar.
Certo de que um casal recém casado quebraria a maldição, seja ela qual fosse, Maurício providenciou até a mudança do casal, para que eles não tivessem preocupação alguma.
Luciano e Vera casaram-se, foram para a lua-de-mel e se instalaram em seu “novo lar”.
Luciano trabalhava o dia inteiro, mas Vera trabalhava em um colégio apenas em meio período e, ao chegar em casa se sentia vigiada.
Todos os dia, quando Luciano chegava em casa era sempre a mesma reclamação:
- Eu sinto como se tivesse alguém me espiando através das cortinas – reclamava Vera.
_- Deixa de besteira! Isso não existe! – Respondia Luciano.
No primeiro final de semana na casa, Vera foi ao quintal regar as plantas e viu como se alguém a observasse da casa ao lado e correu para dentro assustada.
- Luciano! Tem alguém me olhando da casa ao lado!
- Vera, a casa ao lado está sempre fechada, acho que nem mora ninguém lá.
- Pois é o que estou falando, Lu.
Com o tempo, Luciano também passou a se sentir observado e foi conversar com o amigo Maurício.
- Maurício, você teve alguma reclamação de algum morador anterior daquela casa onde estou morando? – Perguntou Luciano.
Maurício engasgou com a cerveja que tomava e respondeu com outras perguntas:
- Mas qual o problema da casa? É o encanamento? Quer que eu dê uma olhada?
Luciano com medo que o amigo o julgasse louco desconversou:
- Não nenhum, só estou perguntando.
Luciano não queria mudar para a casa da sogra de maneira alguma e então resolveu evitar o quintal e comprar cortinas mais grossas.
Como o casal não aparecia mais, uma pequena pedra foi atirada na janela.
Era o fim! Vera estava decidida a voltar para a casa da mãe quando Luciano abriu a janela de sopetão e viu uma figura sumir na escuridão do quintal vizinho.
Durante toda a semana foi assim: Pequenas pedras eram atiradas nos vidros das janelas trancadas da casa.
No domingo pela manhã, Luciano resolveu abrir a janela de seu quarto, apesar dos protestos de Vera, antes de ir tomar banho.
Abriu a janela e deixou o sol entrar para espantar o cheiro de mofo.
Tomou seu banho com tranqüilidade e, como esqueceu a toalha, foi até o quarto totalmente nu e apareceu na janela para fechar a cortina.
Foi quando ouviu um grito de horror e uma série de palavras impublicáveis.
Luciano deu um grito de felicidade:
- Yes! Yes! Te peguei!
Era Edeltrudes, uma senhora que vivia sozinha na casa ao lado e gostava de “espiar” os moradores sem que eles soubessem.
Desse dia em diante nunca mais Vera se sentiu observada ou intimidada e, caso isso acontecesse, Luciano estava disposto a fazer uma nova aparição.

É vero




A família de Giovanna veio para o Brasil em um porão de navio logo depois da primeira guerra.
Eram tempos difíceis e na Europa e vir para o Brasil parecia ser uma opção bem promissora, entretanto, assim que chegaram foram levados a uma fazenda onde trabalhavam praticamente como escravos.
Giovanna teve, desde muito cedo, aprender a se defender.
Logo aos 9 anos ajudava a mãe com as panelas e a comida dos trabalhadores da fazenda.
Giovanna cresceu assim: Sem infância, sem brincadeiras, sem felicidade.
Uma coisa não se podia negar: Giovanna era de longe a moça mais bonita da região.
Quando era dia de pagamento, toda família ia para o armazém da cidade para comemorar e pagar as contas da caderneta. Esse era o único divertimento da moça.
Foi no armazém que a moça conheceu Enzo, um belo italianinho com os olhos mais azuis que o azul do céu e se apaixonou perdidamente.
Ao contrário de Giovanna, Enzo sabia ler e escrever. Aliás o rapaz prontamente se propôs a ensinar para a bela moça.
Enzo falava baixinho, pois era de Veneza e a moça era Siciliana de sangue quente.
Os dois acabaram se casando e morando em um pequeno cortiço na cidadezinha.
Por mais que os dois convivessem juntos, Enzo não conseguia fazer com que a mulher perdesse o hábito de falar alto e de ter reações tempestivas.
Para ajudar o marido, Giovanna sentava-se na máquina de costura e fazia roupas e pequenos consertos em costura reta.
Por causa de seu temperamento, a maioria das mulheres do cortiço não gostava dela e, todos os dias, o falatório acabava em brigas a serem apartadas pelos maridos.
Todos os anos Giovanna tinha um filho e a cada filho que nascia, a maledicência da vizinhança aumentava dizendo que Giovanna costurava bem para fora.
A mesma vizinhança que falava mal, vinha durante o resguardo da moça, fazer visita, trazendo presentinhos e para olhar bem de perto o novo rebento.
Giovanna cansada desse falatório e resolveu por fim a essa fofoca que depunha contra sua honra.
Após o nascimento do seu quinto filho, marcou um chá com todas as mulheres da vizinhança.
Passou o dia preparando a mesa de quitutes que serviria.
Desconfiadas, mas não querendo demonstrar fraqueza uma a uma foi chegando e se sentando na apertada sala.
Comeram e se maravilharam com todas as coisas deliciosas que Giovanna sabia fazer na cozinha.
O tempo foi passando e nada de Giovanna trazer seu novo rebento para apresentar para “as amigas”.
Foi quando a moça anunciou:
- Chegou a hora.
Todas estavam ansiosas para olhar para a criança para tentar adivinhar com qual homem ela parecia para poderem falar mal.
Giovanna empurrou a cortina que servia de porta, entrou para dentro do pequeno cômodo e voltou com uma manta entre os braços.
Todas correram na direção de Giovanna que puxou uma corrente escondia na manta e deu uma surra em pelo menos cinco mulheres que não conseguiram correr a tempo.
Desse dia em diante ninguém mais ousou falar mal da italianinha louca que morava no 214.




Imagem: http://quotidianoale.blogspot.com/2010/05/as-mais-queridas-e-antigas-propagandas.html

terça-feira, 22 de março de 2011

Meninos cantores





Hoje me lembrei dos meus tempos de menina quando viajávamos para uma cidadezinha ao sul de Minas chamada Lambari.
Passamos todos os natais da minha infância lá e algumas viradas de ano também.
Todos os anos encontrávamos quase sempre as mesmas pessoas e tentávamos criar laços com essas pessoas, porque na verdade, nenhum de nós tinha  laços familiares fortes para passar o Natal em família.
Ficávamos sempre no mesmo hotel e, quase sempre no mesmo “conjugado”.
Cada um tinha uma desculpa ensaiada para estar passando o Natal lá, mas a verdade é que nós, crianças queríamos estar em qualquer outro lugar, menos ali.
Para uma criança, passar 15 dias em um hotel é uma verdadeira tortura, pois não se pode abrir a geladeira e comer o que quer, tem hora para as refeições, não pode correr, fazer barulho...
Mas quando se mora num apartamento de dois quartos, sem play e sem poder sair na rua para brincar, um hotel com play, piscina e num lugar calmo, onde se pode até brincar em frente, é muito mais do que se tinha na verdade.
Após o jantar, era costume sair para dar um passeio pelo centro da cidade e depois sentar nos bancos em volta do hotel para conversar.
Certo ano, que já não me lembro mais qual era, todas as noites aparecia um dois meninos do local que paravam em frente aos bancos e começavam a cantar em troca de dinheiro.
A princípio o porteiro do hotel “espantava” os garotos como se faz com cachorros: Correndo e gritando passa daqui, mas logo os hóspedes reclamaram e disseram que gostavam de ouvir os meninos cantarem.
Eu achava um absurdo expulsar os garotos da frente do hotel, já que alguns hóspedes traziam instrumentos musicais e se reuniam no mesmo local para cantar suas músicas.
Na época a música sertaneja não havia eclodido e o repertório dos garotos era bem restrito, mas eles cantavam afinadinhos e com muita vontade.
Os meninos vinham sempre no horário em que tinha mais gente em frente ao hotel e a cada dia mais gente parava para vê-los.
Eles eram sujinhos e andavam descalço, mas tinham uma voz afinada. O mais novo era mais envergonhado e cantava baixinho, mas sempre acompanhava o mais velho.
Depois de certa hora, o mais velho recolhia o dinheiro e ia embora dizendo um boa noite tão gostoso de se ouvir que, com o tempo os hóspedes passaram a conversar com eles antes de irem embora.
Os hóspedes compraram sapatos e roupas para os meninos, davam dinheiro para eles, pois sabiam que encerravam a cantoria antes do mercadinho local fechar, pois tinham que levar comida para casa.
Aos poucos, o dinheiro dado era só mais um acessório, pois as crianças levavam quase uma cesta básica todos os dias para casa.
Isso se repetiu por três natais seguidos.
Num Natal, minha mãe separou um monte de roupa para levar para os meninos e, chegando lá, descobrimos que eles tinham desaparecido.
Ninguém sabia informar o que tinha acontecido com eles e eu não entendia como em uma cidade tão pequena, onde as pessoas se cumprimentam e sabem o nome de todos que circulam pela rua, ninguém sabia informar nada sobre os meninos cantores.
Eu gosto de pensar que alguém reconheceu o talento desses meninos e que hoje seus filhos não andam de pés no chão e vivam em busca de trocados.






Imagem: Google

sábado, 12 de março de 2011

Eugênio era um gênio





Eugênio era um rapaz que não fazia tanto sucesso assim com as mulheres: Era branquinho, gordinho e nenhum pouco bonito.
Talvez por isso, quando alguma desavisada caía na sua lábia, ele fazia questão de humilhá-la.
Falava para todos que era garanhão, mas a verdade é que estava sempre sozinho em seu quarto desenhando mulheres crucificadas ou sodomizadas.
Não se sabe muito bem por que Eugênio tinha essa necessidade de minimizar o sexo feminino. Talvez não tenha tido uma boa relação com a mãe e as duas irmãs mais velhas.
Talvez, por elas serem tão mais velhas, o tivessem tratado como algo tão infantil e insignificante, que quando tenha atingindo a adolescência, tivesse achado que era mais importante e melhor que elas, já elas estavam velhas.
Eugênio não conseguia manter um relacionamento por muito tempo e culpava as mulheres por isso.
No colégio era sempre ridicularizado pelos amigos e não conseguia ter uma amizade consistente, daquelas que duravam anos. Apenas as garotas queriam ser suas amigas, o que fazia com que seu ódio aumentasse ainda mais pelo sexo feminino.
Eugênio era realmente uma pessoa que, para quem tinha um relacionamento superficial com ele, parecia gentil demais para ser verdade, mas era só conhecê-lo melhor que se percebia que gentileza era só um meio para que ele conseguisse o que queria das pessoas.
Quando Ana surgiu na vida de Eugênio, ele era só sorrisos, mas bastava ser contrariado que fazia da vida de todos em sua volta um inferno!
Algum tempo depois deixava de fazer algo que Ana quisesse muito, só de maldade.
Após o casamento, o homem gentil quase que desapareceu por completo, aparecendo apenas quando ele precisava de Ana.
Na maioria do tempo Eugênio mostrava a Ana o quanto ela era desprezível e pequena.
Eram tantos elogios que Ana acabou acreditando que realmente não prestava realmente para nada e, aos poucos, foi se afastando de tudo, parou de se arrumar, perdeu o emprego e passava horas em frente da TV bebendo e fumando.
Ana se arrastava pela casa, enquanto Eugênio dizia o quanto seria bom “se livrar” dela e o quanto ela feia, alcoólatra e cheirava a fumo.
Certo dia, enquanto assistiam a um filme, Ana foi ao banheiro e, ao lavar as mãos, deixou sua aliança cair na pia.
Eugênio não acreditou na esposa.
Disse que ela tinha jogado fora de propósito.
Ana tentava se desculpar e explicar, mas Eugênio estava irredutível!
Foi quando Ana tentou segurar no braço de Eugênio e esse a empurrou escada a baixo.
Enquanto Ana agonizava ao pé da escada, Eugênio deu um sorriso, desceu calmamente cada degrau da escada olhando fixamente para ela, saltou seu corpo imóvel e saiu pela porta, voltando horas depois.
Quando a ambulância dos bombeiros chegou Eugênio chorava copiosamente no ombro de Márcia, melhor amiga de Ana, que tinha chegado minutos antes dele e tinha chamado por socorro.
Márcia estava mesmo impressionada com o amor que  Eugênio sentia por Ana.






Imagem: Google